quarta-feira, 1 de março de 2017

Quarta-feira de Cinzas

Acordou ligeiramente tonta; o céu ainda estava cinzento, mas começava a azular lá longe, pro lado do mar. Lembrava vagamente de ter tomado um comprimido pra dormir na véspera, pra escapar da enxaqueca. Levantou com dificuldade, tropeçando na chinela macia, disfarçada de coelho felpudo. Quase fim de feriado, foi a primeira coisa que veio à sua cabeça. Tristeza ou alívio?

Adernando ligeiramente - será que misturara vinho com o comprimido? - na direção da cozinha, passou pelo quarto da filha que dormia tranquila e pesadamente,  a porta escancarada, a fantasia de odalisca amarfanhada em volta das pernas. Na cama de baixo, seu grande amigo platônico Rafael, só com  a parte de baixo das bombachas de sultão. Enrodilhadas nos véus do harém, Rapunzel, a gatinha tricolor no colchão de cima e Cinderela, a cadelinha bassê no de baixo. A lógica das crianças, lembrou, Rapunzel viveria encarapitada no alto das coisas e Cinderela, baixinha, fuçando as supostas cinzas das ruas. Mas os nomes haviam sido dados muito tempo atrás, quando Sofia e Marcos eram pequenos.

"Marcos, meu filho"  - e a dor voltou, pungente, como no dia em que recebera a notícia do acidente, tantos anos atrás.  Não iria melhorar nunca?

Etelvina havia deixado a cafeteira pronta para ser ligada. "Ainda bem que não esqueceu, com aquela agonia de ir pro samba com o Juvenal!".  Os pãezinhos integrais estavam aninhados na cestinha que a sobrinha trouxera de fora, bastava conectar na tomada pra esquentar. E a geleia da roça em seu potinho, coberto pelo retalho de xadrez quadriculado.

Muito bem, o regador  fora deixado cheio! Enquanto o sabor do café começava a se espalhar no ar, foi à área regar as ervinhas de cheiro, as pimentas, os tomatinhos que cultivava em jardineiras bem dispostas. Adorava aquela área grande de apartamento antigo, o muro alto como o de um jardim e atrás dele montanhas, só montanhas, nenhuma ponta de telhado sequer.

O telefone, estridente,  arranhou o silêncio cristalino da manhã pós-carnaval. Só podiam ser a Vó e o  Bisa. Quem mais usava telefone fixo nesta terra? Antes de ouvir a voz do avô, veio a cantoria alegre dos canários da terra que ele criava. "Já acordou, minha neta?" Só mesmo o Vô pra achar que algum cristão da cidade grande estaria de pé às 7hs. em uma quarta-feira de cinzas.

É claro que ela estava acordada. Na mesa da sala, amplamente espalhados livros e artigos pro relatório  que ficara de adiantar durante o Carnaval. Passou por eles fingindo não os ver, a caneca de café (com estampa inglesa de gato) fumegante nas mãos, foi sentar na rede da varanda. Que benção, aquela varanda também enorme, cheia de plantas, e a árvore folhuda que a ocultava completamente dos vizinhos do outro lado - distante , aliás - da rua sossegada.

Por força do hábito, abriu o laptop que estava  na mesinha de vime ao lado da rede. O monitor demorou muito a acordar de seu sono cibernético de quatro dias. Quando o fez, não foi a usual foto risonha de toda a troupe que veio a seu encontro. Uma névoa esbranquiçada parecia dançar na tela e, como as ramificações de uma rede neuronal intermitente, pontos brilhantes explodiam em estrelas e depois de novo se contraiam em cabecinhas de alfinete atentas como olhinhos de furão. "Desejos, desejos, desejos", pensou...ou pensaram por ela. Foi como se  uma vozinha metálica espoucasse dentro de sua mente, em consonância com os mini-cometas  da tela.

Ficou tão atônita com o comportamento inusitado do Lapinho (como usualmente chamava, carinhosamente, seu micro) que por um instante , simplesmente não conseguia pensar em nada, o que, convenhamos, não é coisa muito fácil de se fazer. Ia começar a compor as ideias - enquanto isto, a rede neuronal se contorcia incessantemente, como os ciprestes endoidecidos de Van Gogh - quando o celular começou a gritar em tom altíssimo.

 "Céus, quem poderá ser a esta hora da manha?!" . E estendeu o braço para alcançar o aparelho, que estava bem ao lado do Lapinho delirante.